Abdome agudo

Apendicite aguda: reconhecer cedo faz diferença

É a emergência cirúrgica abdominal mais comum. A dor típica muda de lugar em poucas horas — e reconhecer esse padrão cedo evita complicações graves como a perfuração.

Revisado por  Dr. Luiz Felipe Pitzer Jacob CRM-RJ 52-100560-0 · RQE 30049 Atualizado em agosto de 2026 7 min de leitura

01O que é a apendicite

O apêndice é uma pequena estrutura em fundo cego ligada ao início do intestino grosso, no lado inferior direito do abdome. Quando sua saída é obstruída — por um fecalito (fezes endurecidas), aumento do tecido linfoide ou outras causas — ele inflama: é a apendicite aguda.

Sem tratamento, a inflamação evolui: o apêndice pode perfurar, espalhando infecção pela cavidade abdominal (peritonite) ou formando abscessos. Por isso a apendicite é tratada como urgência.

Ilustração do abdome mostrando estômago, intestino delgado e grosso, com destaque ampliado do apêndice na porção inicial do intestino grosso.
Onde fica o apêndice. Ele é uma pequena bolsa em fundo cego ligada ao início do intestino grosso, na parte inferior direita do abdome — é essa posição que explica para onde a dor migra. Ilustração: Blausen Medical, CC BY 3.0 · adaptada (recorte e rótulos traduzidos)

Pode ocorrer em qualquer idade, com pico entre os 10 e 30 anos.

02Sintomas típicos

O quadro clássico tem uma sequência bastante característica:

  1. Dor ao redor do umbigo ou na parte alta do abdome — difusa, tipo cólica
  2. Perda de apetite, náuseas e às vezes vômitos
  3. Em 6 a 24 horas, a dor “migra” para o lado inferior direito e se torna contínua e localizada
  4. Febre baixa; a dor piora ao andar, tossir ou apertar o local

Nem todo caso é típico: crianças, idosos e gestantes podem ter quadros diferentes, o que torna a avaliação médica ainda mais importante.

Atenção

Não use analgésicos fortes por conta própria para "aguentar" uma dor abdominal que não passa — mascarar a dor atrasa o diagnóstico. E laxantes ou compressas quentes podem piorar o quadro.

03Diagnóstico

O diagnóstico combina história clínica + exame físico com exames complementares:

  • Exames de sangue — leucócitos e marcadores de inflamação elevados
  • Ultrassonografia — útil especialmente em jovens, magros e gestantes
  • Tomografia — o exame mais preciso na dúvida diagnóstica

Em quadros claros, a cirurgia não deve ser adiada por exames desnecessários — tempo é um fator decisivo na apendicite.

04A cirurgia: apendicectomia

O tratamento padrão é a retirada do apêndice, preferencialmente por videolaparoscopia:

  • 3 pequenas incisões; câmera e pinças fazem a remoção
  • Permite lavar a cavidade e inspecionar todo o abdome — vantagem importante se houver perfuração
  • Menos dor, menor taxa de infecção de ferida e retorno mais rápido

Antibióticos fazem parte do tratamento ao redor da cirurgia. Em situações específicas (abscesso já organizado, por exemplo), a estratégia pode mudar — drenagem e cirurgia em um segundo momento. O tratamento apenas com antibióticos, sem cirurgia, existe em pesquisa e em casos muito selecionados, mas tem taxa relevante de retorno da apendicite — a apendicectomia segue sendo o padrão.

05Recuperação

Internação

Em apendicites não complicadas, costuma ser de 1 a 2 dias; casos com perfuração exigem mais tempo e antibiótico venoso.

Primeira semana

Dieta progressiva, dor controlada com analgésicos comuns e caminhadas leves.

1 a 2 semanas

Retorno a estudos e trabalho leve, conforme evolução.

3 a 4 semanas

Liberação gradual para esportes e carga, após revisão.

06Quando ir ao pronto-socorro

⚠ Vá ao PS imediatamente se

  • Dor abdominal contínua há mais de 6 horas, principalmente se migrou para o lado direito
  • Dor + febre + náuseas/vômitos
  • Dor que piora ao andar ou tossir, com abdome sensível ao toque

Apendicite não melhora sozinha. Na dúvida, procurar o pronto-socorro é sempre a decisão certa — avaliar e descartar é infinitamente melhor que operar tarde.

07Perguntas frequentes

Em casos muito selecionados e não complicados, existe a estratégia de tratamento antibiótico — mas uma parcela significativa dos pacientes volta a ter apendicite e acaba operando. A apendicectomia continua sendo o tratamento padrão, resolutivo e definitivo.

Não. Ele participa discretamente do tecido linfoide intestinal, mas sua retirada não traz prejuízo perceptível à digestão ou à imunidade.

Em apendicites não complicadas operadas por vídeo, em geral 1 a 2 dias. Quando há perfuração ou abscesso, a internação é maior, com antibióticos venosos.

Na via laparoscópica são 3 incisões pequenas (0,5 a 1 cm), com ótimo resultado estético. Na cirurgia aberta, a incisão fica na região inferior direita do abdome.

Não — o padrão clássico começa ao redor do umbigo e só depois migra para o lado direito. Esse "caminho" da dor é um dos sinais mais característicos da doença.

Pode ser: o útero desloca o apêndice e a dor muda de posição, dificultando o diagnóstico. Dor abdominal persistente na gestação sempre merece avaliação rápida.

Dr. Luiz Felipe Pitzer Jacob

Escrito e revisado por

Dr. Luiz Felipe Pitzer Jacob

Cirurgião geral · CRM-RJ 52-100560-0 · RQE 30049. Mais de 10 anos de prática em cirurgia eletiva e de urgência, com formação no IRCAD e no Hospital Sírio-Libanês.

Aviso importante: este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico individualizado. Diante de qualquer sintoma, procure avaliação médica. Em emergências, dirija-se ao pronto-socorro mais próximo ou ligue 192 (SAMU).

Dor abdominal persistente? Não espere passar.

Cada caso é único. Traga seus exames e suas dúvidas — vamos conversar sobre o melhor caminho para você.